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J. C. Fantin

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

[DEMO] Minha Jasmim

Conto Fantástico - Pequeno Infinito

Subi na primeira linha. Sentei-me em um dos lugares mais no fundo do ônibus, à esquerda, perto de uma senhora nada simpática que me olhou com uma cara estranha ao ver o pacote transparente que eu tinha em mãos. Ela sabia que era incomum, devido ao calor que fazia no Maranhão, uma pessoa transportar uma bagagem daquelas no colo. O tempo estava seco, empoeirado, iluminado e nada sutil em pleno novembro. Em apenas três paradas de viagem, o ônibus já estava quase lotado, sufocante, atordoante. Mas nada ruim o suficiente para eu descer ou esperar. Tudo o que eu precisava era da minha consciência, minha solidão e meu objetivo de entregar aquilo. Aquela viagem estava apenas começando, afinal.

Chovia forte naquele dia de setembro. Estava frio, minhas roupas já estavam encharcadas e aquela cobertura pouco mais fazia além de evitar que eu virasse uma esponja em um chuveiro. Quando ia parar? Esperava que o mais cedo possível, não queria perder a manhã toda de domingo. Foi então que ela apareceu pela primeira vez, igualmente encharcada, segurando uma cesta de flores multicoloridas e um guarda-chuva minúsculo que de pouco servia. Ficou ali na cobertura, do meu lado, parada, com o mesmo objetivo que eu: ficar longe daquela insistente água que caía dos céus. Ela olhou para mim. Eu retribuí dizendo um tímido “oi”. Foi o suficiente para iniciarmos uma conversa. E logo desejei que a chuva nunca mais parasse. Quis perder o domingo inteiro com ela.

Desci. Já estava na fronteira com Piauí. O sol forte prevalecia, juntamente com o cheiro de suor e sons ruidosos dos viajantes da estação. Comi um lanche, deitei no banco da praça para descansar por alguns minutos. Tudo estava quente: a madeira onde deitei, as roupas que se friccionavam com minha pele e, céus, até o ar da brisa que deveria ser ameno. Mas minha caixa transparente não seria abandonada por nem um segundo sequer e usei meu corpo e minhas mãos para não deixar ressecá-la ou aquecê-la demais. Por fim, fiquei o resto daquela tarde pedindo esmolas. Não iria longe de jeito nenhum com o dinheiro que eu tinha. Logo que pude, comprei mais uma passagem e entrei no veículo que passaria mais adiantado rumo ao próximo destino. Fiquei em um dos poucos bancos que sobraram, no corredor, e abracei minha caixa. Caí no sono rapidamente, a viagem seria longa.

Em apenas duas semanas saindo juntos, eu já estava perdidamente apaixonado por ela. Seu olhos claros, seus cabelos escuros, sua formidável silhueta. Era absolutamente como um sonho. Um sonho fundo como um mar e claro como as nuvens, imersivo, feliz. Do tipo que o sonhador jamais quer abandonar. Ela sorria o tempo todo perto de mim, sorria quando eu sorria, sorria quando nos perdoávamos de nossos erros bobos e sorria até mesmo quando ninguém estava com vontade de sorrir. O que eu mais gostava era o seu sorriso. A curva de seus lábios que me levavam pela estrada de seus beijos até o encontro de seus olhos. Mas houve apenas uma coisa que a fez esquecer de fazer aquela curva: quando os pais dela descobriram tudo.

Cheguei lá pelas metades da Bahia, em uma cidadezinha chamada Jacobá, Jacobom, não sei ao certo. Dormi o resto da madrugada em um canto da entrada de uma sapataria. Passei frio, muito frio, sendo obrigado a me cobrir com um pedaço de cortina que achei no lixo. Quando acordei, esperei algumas horas sentado na calçada, até sentir fome. Pedi as sobras de um restaurante que por pena me deixou um pote de macarrão. Um menino pensou que eu estava vendendo a caixinha que eu trazia comigo, me ofereceu até mesmo uns bons trocados, mas eu recusei, claro. Voltei a pedir esmolas no sinal vermelho e uma mulher muito gentil me deu de uma vez só tudo o que eu precisava. Paguei a próxima passagem e entrei no próximo ônibus, sentando no lugar que sobrou que era um malcuidado sob a janela sem cortina. Deitei por cima da caixa transparente para não estragar o conteúdo e me queimei inteiro com o sol escaldante. Não consegui dormir sobre a estrada acinzentada e ficaria assim por muito mais tempo até onde eu queria chegar.

Eles a acusaram de ter feito uma escolha ruim. Como uma donzela de classe tão privilegiada estava saindo com alguém como eu, morador de periferia sem muito além de um emprego humilde e poucos benefícios? Como poderiam aceitar? Disseram a ela que não podiam admitir o retrocesso da própria cria. Estavam proibindo tudo e foi onde tomei minha atitude. Após uma madrugada de festas solitárias e devaneios silenciosos, invadi o quintal dela e a levei, sem nenhuma resistência, para fora. Decidimos que sairíamos dali para sempre. Para que ela, uma donzela de classe tão privilegiada, ficasse para sempre com alguém como eu, morador de periferia sem muito além de um antigo emprego humilde e agora sem nenhum benefício. Juntei minhas moedas com as dela, pegamos um ônibus atrás do outro iniciando no território gaúcho e, quando não tínhamos mais nada para gastar em passagens, estabelecemos nossa própria moradia já no norte do país. Bem longe dos problemas, dos benefícios e da terra natal, mas, acima de tudo, juntos. Eu e seu sorriso.

Chegava em São Paulo depois de passar por toda Minas...

Quer ler o resto do conto?

(。◕‿◕。)
J. C. Fantin
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