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J. C. Fantin

domingo, 7 de outubro de 2018

Cavalo Branco

Miniconto
Eu estava no meu apartamento, observando a paisagem pela janela, segurando o celular na minha orelha e esperando ouvir qualquer coisa vinda dele. A casa vizinha ao meu prédio era vasta, construída sobre um grande terreno preenchido por um gramado bem cuidado. Vivendo ali, um cavalo branco pastava docilmente enquanto tomava o pouco sol daquele dia repleto de nuvens. Eu fiquei o observando. Sua cauda balançava casualmente, mostrando uma tranquilidade equina. Seus pelos eram muito bem cuidados e escovados, foscos mas sem um sinal sequer de sujeira ou feridas. Sua crina parecia ter sido cuidada por um cabeleireiro, tamanha a precisão do corte semi raso e elegante. Sua refeição naquela grama parecia ser ordenada por intervalos de mordidas curtos e equidistantes entre um e outro, a cabeça movia-se devagar. Calculei que o cavalo gastaria cerca de noventa mordiscadas, ou aproximadamente três minutos, para limpar uma área de um metro quadrado de grama. Baseado nisso, também calculei que ele precisaria de cerca de dezesseis horas ininterruptas para comer a grama daquele campo inteiro. Contando juntamente com os intervalos que o animal precisaria fazer para dormir, caminhar de um lado para o outro, contemplar a paisagem, beber água, receber banhos e escovadas ou servir de montaria para a filha do proprietário, refleti que o tempo necessário para a grama crescer após uma mordida era inferior ao tempo que o cavalo levaria para terminar um ciclo inteiro de pastagens. Dito isso, o elegante animal dispunha de um terreno autossuficiente em termos de alimentação. E, considerando os bons cuidados que o dono tinha com água potável, cuidados veterinários, tratos higiênicos e compromissos estéticos, concluí que aquele cavalo era agraciado com uma vida saudável e serena. Ele não passava por dificuldades, não se estressava com qualquer fator externo e nem sequer precisava se preocupar com algo. Apesar de não demonstrar nenhuma emoção a partir de linguagem corporal, era visível e muito claro que ele estava feliz e confortável, talvez até mesmo orgulhoso. Poucas coisas eram mais relaxantes do que ver um ser vivo em uma tão completa sintonia com a natureza, preservando o equilíbrio perfeito e autossustentável do universo silencioso e tranquilo que constituía aquele terreno residencial. Servia como um contraste homogêneo para os problemas e dificuldades da humanidade que, bem perto, ainda sofria continuamente com as regras e ignorâncias unilaterais e saturadas vinda dos próprios membros.

Perdi o foco do pensamento quando ouvi a voz da atendente no telefone:

— Senhor, está me ouvindo?

— Estou sim, pode falar — respondi.

— Você não gostaria de assinar, então, o plano Extra Fibra Plus Multi, com mais dois gigabytes de internet, ligações ilimitadas para a mesma região e acesso gratuito às redes sociais, tudo por quarenta e nove e noventa por mês, contando com os quinze por cento de desconto exclusivo do Cliente Fidelidade?

— Moça, pela terceira vez, eu não estou interessado em descontos e promoções, eu só quero mudar o meu plano para o cartão pré-pago. Só isso, eu não quero mais nada, não quero perder mais o meu tempo e o seu também. Por favor, poderia apenas fazer o que eu estou pedindo?

Um doloroso silêncio de cerca de três segundos se seguiu e a atendente voltou a falar em seguida:

— Está certo, senhor. Por favor aguarde na linha por mais um minuto enquanto eu consulto o seu registro no sistema para ver se há parcelas de pagamento pendentes.

— Está bem, moça, eu espero — e voltei a ouvir o silêncio.

Quando olhei pela janela novamente, o cavalo branco não estava mais à vista.


( ˘˘̯ )
J. C. Fantin
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