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J. C. Fantin

quarta-feira, 2 de março de 2016

Mãe

Miniconto
Acordei, me vesti, saí para o trabalho. Recém cheguei no meu escritório e meu irmão me ligou: “Nossa mãe foi atropelada”. Corri para o hospital, meu pai me recebe aos prantos: “Ela quebrou a coluna”.

Ela estava indo ao trabalho de bicicleta, quando um carro cortou sua frente e causou esse acidente horrível. Andei até a sala de emergência, acariciei sua cabeça, a olhei nos olhos, senti um pouco da dor que ela sentia. Não era a dor dos ferimentos, mas sim a de talvez nunca mais poder andar novamente. E ela estava calma: sorria para mim, dizia que ia dar tudo certo, que foi apenas um acidente.

Andei para fora, os parentes chegavam sem parar, as ambulâncias circulavam incansavelmente, as enfermeiras aplicavam os analgésicos, meu irmão assinava os papéis de “sem cura garantida”. Eu sentei, cruzei as mãos e as pernas, senti o odor dos remédios vindo de dentro, as lágrimas dos pesarosos, a paciência dos funcionários, as nuvens se fechando para uma possível chuva serena. Foi então que decidi dar uma volta.

Caminhei. Por que eu não chorava? Por que eu não podia permitir a mim mesmo entrar em um pequeno oceano de pessimismo e desalento, feito em cinzas nas chamas da própria preocupação?

E foi assim que um tal ser apareceu. Eu não notei nada nele, se tinha chifres ou asas, seis braços ou nenhum, se era bom ou mau, gordo ou magro, real ou imaginário: ele era apenas um ser.

“Eu posso fazer sua mãe voltar ao normal”, ele disse. “Mas apenas sob uma condição: você se colocará nesse acidente no lugar dela. Deslocarás sua coluna, a medula irá inchar, terá que fazer uma cirurgia sem garantias, perderá o movimento das pernas, não poderá controlar as necessidades e talvez, apenas talvez e nada mais do que talvez, recuperará o controle sobre esses membros”.

Assim que ele falou, eu não vi se ele sorria ou chorava, cruzava os braços ou os usava para me abraçar: era apenas uma proposta. Ele se preparou para uma longa indagação, quando na verdade eu respondi na hora: “Eu aceito”.

Minha mãe é uma mulher saudável, caridosa, sem orgulhos exagerados ou ambições indelicadas, feita em bondade e abençoada em pureza. Uma esportista, amante do ar livre e, apesar das dificuldades e tantos fatores que poderiam fazê-la cair, pedalava rápido para não perder um minuto sequer do trabalho — isso que, por algum motivo, a puniu.

E eu, um técnico de informática, escritor por hobbie, igualmente amante do ar livre e da pureza e bons pensamentos, sedentário e pensativo, não podia esperar presente melhor: alguém estava oferecendo um concerto de tudo por um preço que, para mim, em nada me atrasaria. Eu aceitei, sem me preocupar com julgamentos ou adversidades, eu seria feliz se ela também fosse.

O ser estalou seus dedos invisíveis, e me colocou de volta na rua onde eu estava passeando para refrescar os pensamentos. Me senti estranho, mesmo na realidade não sabendo o porquê: olhei para baixo, e continuava de pé. Andei de volta para o hospital, vi as mesmas pessoas, recebi as mesmas notícias e informações, as mesmas lágrimas e os mesmos abraços de consentimento. Andei para dentro da sala de emergência, e minha mãe continuava deitada lá: calma, solene, com um sorriso no rosto, mergulhada em um otimismo inabalável.

Foi então que eu percebi: minha mãe, a mulher saudável, caridosa, sem orgulhos exagerados ou ambições indelicadas, feita em bondade e abençoada em pureza, esportista, amante do ar livre e inalteradamente dedicada: ela não deixaria meu desejo de cumprir a proposta se concretizar.

Isso porque nada, nem um acidente ou a talvez perda de seus movimentos a fariam cair. A pessoa que me ensinou a nunca desistir e a amar a vida, respeitar a si próprio e ainda mais aos outros, não perderia nada naquele dia. Aquele acidente não era uma tragédia, uma perda e nem mesmo um pesar: era apenas um obstáculo. Um obstáculo que minha mãe sabe superar de uma forma que ninguém mais consegue. Um obstáculo que a deixará provar sua força de vontade e amor à própria vida, que mostrará quem realmente se importa com ela e quantos são os entes queridos que realmente a amam, que a fará mostrar o valor de ser uma pessoa que nunca desiste.

É a melhor mãe do mundo, a melhor que qualquer um poderia desejar, a que não deixa de sorrir em nenhuma situação e permanece calma mesmo que muitos chorem por uma provável perda que ela nunca de fato sofrerá.

Mãe, eu te amo muito. Te amo com todas as minhas forças e desejo tudo que há de melhor. Não faria diferença se eu me pusesse em seu lugar ou se a perda das pernas fosse iminente: tudo para mim dá certo e tudo dará para sempre — desde que você esteja comigo.


◕︵◕
J. C. Fantin
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3 comentários :

  1. Unknown2 de março de 2016 às 15:05

    meus pêsames cara, vai dar tudo certo mesmo só confia..

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  2. Unknown18 de março de 2016 às 17:52

    meus pêsames tb

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  3. Unknown8 de abril de 2016 às 20:32

    xente, pêsames é quando alguém morre, força ai Ulki

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